Discurso do Pe. Paulo Sérgio:

 

COMEMORAÇÃO DOS DEZ ANOS DE FUNDAÇÃO DO CENTRO DIOCESANO DE FORMAÇÃO TEOLÓGICA DE LIMEIRA

 

Excelentíssimo e Reverendíssimo Dom Vilson Dias de Oliveira, Bispo Diocesano de Limeira

Excelentíssimo e Reverendíssimo Dom Ercílio Turco, Bispo Diocesano de Osasco

Reverendíssimo Pe. Reynaldo Ferreira de Melo, Vigário Geral da Diocese de Limeira

Reverendíssimo Pe. Éder Donizetti Justo, Coordenador de Pastoral da Diocese de Limeira

Autoridades religiosas, civis e militares

Alunos, Egressos e demais pessoas presentes.

 

Com alegria e satisfação nós nos reunimos aqui para celebrar dez anos de fundação do Centro Diocesano de Formação Teológica de Limeira. Lembro-me com limpidez de memória o dia 31/10/1997, quando cheguei de Roma após ter-me doutorado em teologia e tendo-me apresentado a Dom Ercílio, fui impulsionado por ele a pensar a formação teológica dos agentes de pastoral da Diocese. Recordo-me também de Dom Augusto dizendo-me no dia 13/12/2005 que admirava o trabalho de formação teológica que nossa Equipe de Coordenação realizava. Lembro-me ainda de Dom Vilson que em agosto de 2007, quando ainda não havia sido empossado na Diocese, afirmou-me pessoalmente que apoiaria todas a iniciativas de formação teológica que capacitasse os agentes de pastoral visando melhor qualificação de sua ação. Nos três Bispos, a confiança eclesial foi algo sempre muito presente. Confiança esta que o primeiro Bispo diocesano, Dom Tarcísio Ariovaldo Amaral já demonstrava quando criou o curso de formação bíblica em nível diocesano no início da década de 1980e outros canais de formação que, em certo sentido tiveram continuidade também com Dom Fernando Legal, ainda que seu exercício episcopal tivesse sido por pouco tempo na Diocese.

O objetivo do Centro Diocesano de Formação Teológica – mais conhecido como Escola de Teologia – é capacitar teologicamente agentes de pastoral da Diocese, que incidam com sua prática pastoral melhor qualificada em sua respectiva comunidade e atividade de pastoral. Trata-se de uma comemoração que deve também ser vista à luz da teologia, compreendida como ciência da fé e de seus derivados, e por isso é um saber organizado, sistematizado e metódico sobre o conteúdo da fé em plena articulação com a revelação cristã.

Pela ótica teológica, este Centro deve ser compreendido à luz do Concílio Vaticano II, considerado com um dos eventos mais importantes da Igreja católica na era contemporânea. Nele tem-se um movimento de recepção de todo o processo de renovação teológica realizado a partir do final do século XIX e do início século XX, marcado pela emergência de uma grande diversidade de produção teológica, cujo destaque a ser dado está na valorização da categoria história, na apropriação da nova hermenêutica filosófica e na centralidade antropológica no bojo dessa produção. Nesse sentido, surgiram novas teologias: a da história, a existencial, a transcendental, a hermenêutica e as da práxis. Com elas, surgiram os movimentos de retorno às fontes da tradição, dos novos métodos de leitura da bíblia, da inovação da liturgia e de renovação da ação pastoral dos cristãos católicos. Além da recepção, tem-se também o movimento de impulso à efetividade de uma teologia mundial. Dessa forma, o concílio consagrou a articulação entre mistério e história, o conceito de revelação como encontro entre Deus e o ser humano efetuado na história, a primazia da palavra de Deus na revelação, a relação necessária e saudável entre Escritura e Tradição, o diálogo da Igreja com o mundo em evidente atitude de aggiornamento (e aqui vale dizer que aggiornare em italiano vem da palavra giorno que acoplada à partícula a, dá um sentido de movimento e de ação. Assim aggiornamento significa trazer luz, tornar dia uma realidade), de ser a Lúmen Gentium enquanto Lúmen Ecclesia como sacramento da Lumen Christi. Ora, se a teologia daí emergente é uma teologia mundial, comprometida com a história real dos seres humanos, em suas angústias, tristezas, alegrias e esperanças, então torna-se necessário que se produza uma teologia denotativa da práxis histórica de produção de vida para todos os povos e todos os seres humanos. Por isso, a eclesiologia de comunhão presente no Concílio Vaticano II ilumina a utopia de um mundo, de uma Igreja e de um ser humano de comunhão. Tratava-se de possibilitar uma Igreja presente no mundo para a reunião do gênero, capaz de realizar o diálogo inter-religioso e de formar seres humanos de solidariedade, de compaixão e de misericórdia. A luz conciliar proporcionou que a prática cristã fosse o engajamento na utopia de comunhão presente em todos os aspectos da história humana. E para isso, faz-se necessário a formação de pessoas que se comprometam com essa utopia, se dedicam ao que se denomina Reino de Deus e atuem socialmente para que os valores do evangelho sejam realizados nesta história.

Essa iluminação do Concílio Vaticano II está presente no Centro Diocesano de Formação Teológica em seu objetivo fundamental: formar pessoas que à luz da teologia incidam na prática pastoral, visando sua eficácia em consonância com o Reino de Deus. Não se trata da produção de uma cultura teológica isenta da vida real dos seres humanos, descomprometida com os pobres deste mundo, mas de uma cultura teológica denotativa de um verdadeiro compromisso com a vida em abundância, tal como proferiu Jesus (Jo 10,10). Por isso, a teologia aqui desenvolvida tem compromisso histórico, explicita preocupação com a vida dos seres humanos e conceitua Deus de maneira simples e humilde, sem que se elabore um discurso metafísico desvinculado da verdadeira realidade do mundo. A produção teológica deve falar de Deus a partir da vida humana, da história total dos seres humanos e com um compromisso ecológico que aponte o mundo como Shechina de Deus, isto é, habitação de Deus que ama tanto o mundo que enviou seu Filho ao mundo, realizando um movimento de auto-restrição visando esta mesma habitação. Daí que Deus não está fora da criação, não é insensível aos problemas humanos e nem isento do sofrimento. Em sua habitação, Deus sente os problemas humanos, se compadece dos sofredores e explicita sua força ao assumir a fraqueza humana. Portanto, não se experimenta Deus sem a mediação do ser humano e do mundo. Não se fala de Deus sem falar do ser humano e do mundo em que está habitado. Não se comunga com Deus sem realizar a comunhão dos seres humanos e de todos os seres deste mundo.

Produzir uma teologia da vida e formar pessoas comprometidas com uma ação pastoral – que é o modo da Igreja agir no mundo – que contribua na edificação da unidade do gênero humano, no diálogo inter-religioso, na unidade dos cristãos e na constituição de pessoas compassivas e solidárias é escopo deste Centro. Nesses dez anos, tudo o que se construiu neste Centro foi realizado pela conjunção de esforços do Bispo Diocesano, da Coordenação do Centro, do Presbitério da Diocese, dos professores e dos agentes de pastoral. Essa conjunção é, sem sombra de dúvidas, hesed, a charitás de Deus, isto é, a benevolência, o favor de Deus, a sua graça presente em tudo e em todos.

 

 

Muito obrigado

 

Pe. Dr. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves

Coordenador Geral do CDFT

 
 

Mensagem de Dom Vilson, na Solenidade do 10º Aniversário do CDFT

Exmo. e Revmo. Dom Ercílio Turco, DD. Bispo Diocesano de Osasco meu antecessor nos trabalhos desta querida Diocese de Limeira;    

Revmo. Prof. Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves, Diretor e Coordenador Geral do Centro Diocesano de Formação Teológica da Diocese de Limeira; 

Exmos. Srs. Prefeitos, Vereadores e demais autoridades civis e militares presentes neste evento; 

Exmo. Sr. Paulo Dandréa, Vice-Diretor do Instituto Superior de Ciências Aplicas de Limeira (ISCA); 

Exmos. Srs. membros integrantes da Equipe de Coordenação, professores, funcionários e colaboradores do CDFT;  

Revmos. Srs. Padres, Diáconos, Seminaristas, Religiosos e religiosas, leigos e leigas do Povo de Deus presentes em nossa Diocese; 

Prezados alunos e ex-alunos, na pessoa dos quais, como bispo diocesano, acolho todos os que aqui se fazem presentes: 

      Hoje é um dia muito especial para todos os que fizeram e ainda fazem parte da história e da caminhada deste importante instrumento de formação de nossa Diocese de Limeira. O caráter singular desta comemoração surge em virtude das conquistas alcançadas graças às iniciativas e reunião de esforços de todos os que, de alguma maneira, estiveram envolvidos desde o início em sua instalação, em 1999, sentindo e respondendo à real necessidade de se contar, nesta diocese, com um espaço para a formação teológica para os fiéis leigos. 

      Era e ainda é, pois, o objetivo, oferecer uma formação sólida, sistemática, com metodologia e conteúdo básicos muito bem definidos, capazes de oferecer uma reflexão de nível introdutório às diferentes áreas da Teologia. A possibilidade de freqüentar o Centro Diocesano de Formação Teológica dada aos fiéis leigos, além de enriquecer sua formação intelectual, oferece-lhes um instrumental indispensável para compreender e anunciar a fé em sua integralidade, participando junto com os pastores de nossas comunidades e levando a termo a própria missão da Igreja, que é evangelizar. Esta tarefa, da qual os leigos precisam descobrir-se participantes, exige fidelidade ao Magistério Eclesial e sensibilidade ao contexto cultural de nosso tempo, amplamente considerado. A Teologia, assim, constitui-se como instrumento para pensar e agir eficazmente em todas as realidades às quais se remete a Boa Nova.

      O Texto Conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, realizada na cidade de Aparecida – SP, em 2007, já partilhava a experiência de muitas regiões deste vasto continente no sentido de incentivar uma formação mais ampla dos fiéis: “Nas últimas décadas, observamos na América Latina e no Caribe o surgimento de diversos Institutos de Teologia e Pastoral, orientados para a formação a atualização de agentes de pastoral. Nesse caminho, tem-se conseguido criar espaços de diálogo, discussão e busca de respostas adequadas aos enormes desafios enfrentados pela evangelização no Continente. Ao mesmo tempo, tem sido possível formar inumeráveis líderes a serviço das Igrejas particulares” (cf. DA, 344). Por isso entendemos que, como também sugere o mesmo documento no nº. 345, é preciso “valorizar a rica reflexão pós-conciliar da Igreja presente na América Latina e no Caribe”, bem como todo desenvolvimento aqui peculiarmente possível na Filosofia e na Teologia e nas demais ciências que lhe servem de mediações para o pensar e o desenvolver com criatividade a pastoral, reconhecendo o valor do que é próprio de nossa cultura. 

      Toda esta experiência permite que os fiéis leigos, engajados em todas as forças vivas de nossa diocese, participem ativamente e promova estudo ou pesquisa teológico-pastoral, capaz de responder aos desafios encontrados na tarefa evangelizadora e sustentar a fé como experiência de discípulos e missionários de Jesus Cristo. Por sua vez, esta deve ser a postura de todos os agentes de pastoral que, pelo testemunho e uso sábio do conhecimento que possuem, são chamados a despertar nos corações humanos, através do anúncio entusiasmado, o desejo de seguir a Cristo e dar as “razões de sua esperança” ao mundo. 

      Mais uma vez agradeço ao meu predecessor nesta Igreja Particular de Limeira, Dom Ercílio Turco, pela sensibilidade em perceber a necessidade urgente deste Centro Diocesano de Formação Teológica, inicialmente chamada Escola Diocesana de Teologia. Também um merecido reconhecimento ao Prof. Dr. Pe. Paulo Sérgio, que lançou as bases estruturais deste centro de formação, sempre amparado pela solícita colaboração de sua Equipe Coordenadora, do clero diocesano e dos professores que aqui deram sua colaboração, muitos dos quais vindos da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, através da Faculdade de Teologia e Ciências Religiosas, ou de outros institutos ou universidades. Estes professores são todos especialistas nas respectivas áreas aqui lecionadas de modo objetivo e eficaz, garantindo sua qualidade e assimilação por parte dos alunos. 

     Vale lembrar que os colaboradores, principalmente os integrantes da Equipe de Coordenação, são em sua maioria voluntários, como bem sabemos. Estão aqui, doando suas experiências e tempo para que formemos um povo cada vez mais consciente de sua missão. Incluem-se aqui as Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, que inicialmente cederam as dependências do Colégio São José para o Curso, bem como a Universidade Estadual de Campinas – Campus Limeira – e atualmente o Instituto Superior de Ciências Aplicadas (ISCA), também nesta cidade.

     Não podemos nos esquecer dos ex-alunos que, além da contribuição ampla que oferecem a suas comunidades após o curso, que tem a duração de dois anos, são verdadeiros divulgadores desta formação tão frutuosa que eles mesmos receberam. Recordo que, conforme informações que recebi, a primeira turma iniciou-se com aproximadamente 200 alunos, e ainda a procura é grande por parte de pessoas oriundas de nossas paróquias ou mesmo de outras dioceses, como muitas vezes aconteceu, seja para o curso normal ou para o Curso de Aperfeiçoamento. Isso nos permite sentir a necessidade e o desejo positivo de nosso povo em compreender para viver mais profunda e intensamente “a fé que da Igreja recebemos e sinceramente professamos, razão de nossa alegria em Cristo Nosso Senhor” (cf. Ritual do Batismo de Crianças). 

     Como pastor desta Igreja de Limeira, expresso meu sincero sentimento de gratidão a todos os nossos diocesanos, bem como o desejo de buscar cada vez mais, em comunhão, cumprir fielmente nossa missão (missão de todos) de fazer aquilo que Nosso Senhor nos ordenou: “Portanto, ide fazer discípulos entre todos os povos, batizai-os consagrando-os ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, e ensinai-lhes a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estarei convosco sempre, até o fim do mundo” (cf. Mt 28, 19-20). 
 
 


 
Fonte: dom - Vilson  (site da Diocese de Limeira)